Reflexos no Poço dos Desejos


Um Segundo Antes do Gatilho

É agora! O Gatilho aperta!
O terror faz correr todas as excrescências.
Perde-se a construída forma humana.
O ser passará a coisa sem mais vivências.
A vida foi coisa irrefletida e mundana.

A morte faz esquecer o nojo e as maneiras.
Ao escorrerem as salgadas goteiras
Não limpam o cheiro das fezes,
Escorridas pelas pernas bambas,
Em desesperadas danças,
E acumuladas numa poça de esperanças.
Não existem outros revezes.

Morreu sem saber,
Sabendo o que é o desespero,
Mesmo até ao fim…

Mudar o Centro da Tempestade

A multidão estava ali. Só ele os separava dos odiados. Mais que medo, tinha vontade de virar costas e avançar com eles. Queira levar aquela tempestade ao coração de todos os males.

A Revolta da Literatura


As palavras escritas começaram a ouvir-se.
Outrora mudas, agora, devido à urgência, ouviam-se!
Ecoavam pelas estantes, em jeito de barafunda.
Desta, e daquela, prateleira a revolta era oriunda.
Queriam escapar à sorte moribunda de serem esquecidos.
Uniram-se, sentindo-se desesperados e perdidos.
Estavam habituados a ser incompreendidos,
Mas perante da redundante crise sabiam do seu potencial,
Sabiam como poderiam ajudar a vencer a estupidez habitual.
Só precisavam que os ouvissem, pensando e lendo.
Da frustração veio a rebelião à ignorância que era escravidão.
Juntaram todas as suas palavras escritas, concordantes e discordantes.
Queriam que soubessem do depois e o antes,
O bem e o mal, o sim e o não, isolados ou misturados.
Exigiram ser compreendidos e lidos, talvez racionalmente amados.
Queriam, acima de tudo, ser reconhecidos,
Para além das capas e cores em que se erguiam envolvidos.
Queriam que deles e com eles aprendessem, ser lidos para serem ouvidos.
Queriam ser ultrapassados e questionados, não simplesmente satisfazer,
Que os seus conhecimentos embutidos servissem para mais do que ler.
Por menos que isso, todos os livros do país uniram-se!
Os outros pouco neles procuravam o remédio, por isso manifestaram-se!
Queriam que os tais outros percebessem que a sua compreensão
Ajudaria a compreender tudo e os seus porquês,
E à construção depois da confusão.
Ainda noutros livros se há de registar se foi ou não em vão…