Guerra de Balões de Água em Leiria - Praça Rodrigues Lobo - 2013


Uma oferta de fé


O Padrinho, que era ateu, ofereceu um pouco de fé ao afilhado agnóstico. Mas nem um nem outro deram conta. Quem ficou espantando foi Deus, pois já não tinha grande fé naqueles dois.

Cabeçada no Fim de Semana


Nesta sexta-feira acabo as horas
De labor semanal com uma brutal
Dor de cabeça. Vou-me sem demoras
Partir o resto da cabeça ali para o quintal
Que não tenho, junto do monte em forma de vale.


Sou um anormal gajo banal!
Sou um comum gajo que vale
Aquilo pelo que todos se compram e vendem.
Só quero aquilo que ainda me falta saber querer
Para poder ter o que nunca saberei se conseguirei definir.
Um dia a sensação de não saber há de vir.
Até lá vou-me aliviando no fim de semana.
Pode ser que depois de Domingo venha Sábado.
Pode ser que comece tudo ao contrário para ficar igual,
E comece a semana com uma dor de cabeça descomunal.

Levado pela onda de calor

Enfrentou o tsunami escaldante com a saqueta de chá em riste. Mas desapareceu sem saborear a bebida calmante, levado pela água escaldante antes de ter tempo de procurar o açúcar. 

O Sindicalista Fura-Greves

O sindicalista teve um furo e o macaco fez greve. Não chegou a tempo pois a câmara também não tinha comparecido. Ficaram todos em protesto pelos compromissos perdidos, incluindo a greve. Desculparam-lhe aquele furo, embora ficasse socialmente descapitalizado pois parecia desculpa de mau grevista.

O Coelho Amuado e o Pato das Portas Travessas

Apesar de a Quinta estar num estado miserável, o Coelho lá continuava a governar. A sua própria coelheira, o centro da sua liderança e de protecção contra os animais que governava, ia enferrujando. O Coelho temia, cada vez mais, pela sua segurança. Crescia nele o medo de que lhe pusessem as patas em cima. Não era caso para menos. A Quinta estava arruinada, em todos os sentidos, já sem cercas e outros normais arranjos que a pudessem fazer prosperar. Com as reduzidas doses de ração disponíveis, que pouco ou nada alimentavam, já poucos tinham as forças de antigamente. Muitos animais tinham saltado, escavado ou voado, enquanto ainda podiam, para fora dali.
O Coelho, de início, pensou que ter menos animais na quinta seria bom, pois seriam menos a comer e a ameaçá-lo. Mas percebeu que a maioria dos que ficavam já tinha os pêlos e as penas brancas, e que estavam cansados para trabalhar e produzir o necessário para todos se alimentarem e fazerem a Quinta prosperar. Enganou-se depois ainda mais quando confundiu o cansaço dos mais antigos com a vontade de desistir. Esses animais que escaparam ao talho de outros tempos não estavam com vontade de desistir agora.
Já o Pato afastava-se sempre que podia do ninho que tinha perto da coelheira. Apesar de não aguentar voos longos, não deixava de tentar voar o mais que podia para longe do amigo Coelho sempre que algo corria mal. O Pato não perdia uma oportunidade para usar de Portas travessas e escapar, mas sem deixar de vez o ninho de poder próximo do Coelho.
Os animais que ainda iam sobrevivendo começaram a comer-se uns aos outros, segundo a lei dos mais fortes que reinava na natureza selvagem. Ficaram cada vez mais fracos e desunidos, desesperando para sobreviver àquela selvajaria. Os talhantes, vendo a ruína e incapacidade de resistir dos animais da Quinta, atacavam com cada vez mais violência. Vinham com o consentimento do Coelho e do Pato, abatendo os animais mais vigorosos e saudáveis que apanhavam em troca de migalhas que mal chegavam para alimentavam os outros. As leis antigas da Quinta, e as da própria Natureza, sempre tinham exigido sacrifícios, mas a lei do Coelho Amuado e do Pato das Portas Travessas parecia trazer sacrifícios sem sentido.
No total desespero, havia já quem defendesse o fecho da Quinta e que se optasse pela anarquia dos tempos em que todos os animais eram bravos. Outros diziam que, com sorte, ainda viria um dia um caçador que os livraria de alguns dos seus, daqueles animais que sendo bravos de facto se disfarçavam de mansos. Os mais sábios lembravam que isso não resolveria nada, e que se não fosse a mobilização de todos os animais, aproveitando com respeito e compreensão mútua as virtudes de cada um, os problemas comuns jamais seriam resolvidos.
 
Nota: Texto criado para publicação no projeto online P3 / continuação de "A História do Coelho Amuado"
 

 

Cansaço Diagonal

Padecendo de excesso de leituras na diagonal... Espero não ter efeitos secundários, de visão ou de equilíbrio! Mas se tiver: que me levem a descair para a esquerda, pois o mundo parece querer tender para o outro lado.

Espinha Dorsal de uma Rua Torta de Leiria


Escrever com tinta enganos

Sinto cada vez mais vontade em escrever com caneta e papel, especialmente se escorrer de uma caneta de tinta permanente, capaz de registar enganos e erros. Pegar num caderno, sair por ai, mundo fora, e escrever e ilustrar em riscos e rabiscos as visões falíveis que provoca, justifica só por si o esforço de percorrer quilómetros escrevendo sobre nada.
Quero escrever para mim, sentindo os outros e o meio. Quero conhecer o mundo através dos limites que não tem, mas que a estreiteza da minha visão, esforçada na tentativa evitar a miopia de pensar que se vê tudo, me baliza no esforço de aparência esférica.
Se me enganei fico contente por o ter percebido. Se acertei fico desconfiado pois só pode ser ilusão ou mera classificação de quem quer dar sentido de forma ao sentido que nada disto tem. 

A História do Coelho Amuado

Reinava a desordem na Quinta. O Coelho, por essa altura, a partir da sua coelheira, sempre dada a grandes rebaldarias, tentava cumprir com a responsabilidade de liderar todos os animais. Já muitos tinham sido os líderes daquela Quinta. De tempos-a-tempos os animais residentes elegiam uma espécie diferente, embora ficassem com a sensação que a raça era sempre a mesma. Mas foi quando o Coelho se tornou chefe que alguns começaram a ver a diferença, pois sentiam-na no pelo e nas penas.
O Coelho ia recriminando todos, dizendo que andavam gordos porque eram preguiçosos, embora a culpa fosse da ração que todos sempre haviam comido, sem conhecer os seus verdadeiros efeitos. Em vez de mudar a alimentação que era distribuída e arranjar novas sementes para que se sustentassem com uma nova horta, mais saudável e que controlassem, insistiu em reduzir a dose da ração industrial, vinda sabia-se lá de onde. Assim, mesmo comendo muito menos, ninguém tinha emagrecido. Ficaram apenas cada vez mais doentes.
Percebendo o que se passava, o grupo dos animais mais velhos decidiu que o Coelho não podia fazer tudo o que queria. Mesmo nesses tempos de crise os animais anciãos ainda podiam proibir algumas coisas. O Coelho, espantado por desconhecer como era o mundo fora da coelheira, ficou sem saber o que fazer. Decidiu amuar e culpar os anciãos pela sua própria incapacidade de resolver os problemas da Quinta, achando por bem que as leis da natureza pudessem ser violadas sem consequências só porque lhe convinha. Esquecia-se que eram as leis aceites pelos outros animais que lhe permitiam viver naquela coelheira, e de lá mandar na Quinta.
Com o incómodo do líder Coelho caiu a preocupação sobre a comunidade. Cada animal sentia-se, agora mais do que nunca, a caminho do matadouro…

Nota: Texto criado para publicação no projeto online P3

Condomínio fechado que se abriu

O condomínio fechado ficou para sempre aberto a todos. Com todos lá já ninguém se sentia inseguro, uma vez que a presença constante tudo salvaguardava, especialmente da solidão

Elogio à poesia falhando

Neste dia da poesia
Apetecia-me rimar,
Apetecia-me escrever algo com sonoridade
Que fosse profundo, complexo e repleto de emoções,
Mascarando e transfigurando sentimentos.
Mas, ao mesmo tempo, queria ser objetivo,
Tratando temas tangíveis!
…No entanto falhei redondamente…
Não rimei,
Não aflorei sequer a condição humana,
Tão útil para desculpar abordagens sentimentais difusas.
Os versos ficaram escangalhados
E só se podem considerar com tal pelos parágrafos forçados.
É assim o resultado das palavras forçadas
De um esforçado pseudo-poeta, menos que amador.
Com este meu fracasso espero então
Contribuir para que se distingam os verdadeiros poetas.

A Escalada Audaz da Fantasia


Um dia caí desamparado na realidade.
Mas levantei-me e ignorei a minha idade,
Subi, escalando os degraus da fantasia,
Ignorando o efeito da alheia hipocrisia.
Apesar das invejas desta minha subida,
Lá continuei rumo a um novo ideal de vida.

Mas a escalada nem sempre se deu a subir.
Falhei degraus, escorreguei e cheguei a cair.
Apesar dos recuos, compensei de seguida
Com novo impulso no recuperar da subida.
Nem sempre o progresso era efetivo e real,
Muitas vezes era ilusão ou perceção surreal.

Mais que subir matematicamente à força,
É preciso um otimismo que não se distorça,
Que não se desfigure e leve à resignação
De pensar que nunca haverá progressão.
Mais que chegar e desejar o topo do perfeito,
Preciso de continuar sem me sentir contrafeito.

Os degraus vão continuando a surgir ilimitados,
Permitindo-me a liberdade dos inconformados,
Aqueles que querem sempre subir mais e mais,
Sem se tornarem velhacos e isolarem dos demais.
Vou apoiando-me nos patamares que vou pisando,
Vou trepando esta vertente e a realidade imaginando.

Uma História entre Arcos e Passagens de Leiria

 
Um vídeo que conta uma história simples, simplesmente emotiva e que podia ser de qualquer uma ou qualquer um, contada, para além das palavras, com fotografias contemporâneas de Leiria.
 

As Constantes Ocupações em Correria


Transformamos os dias em continuados infernos,
Aquecendo-os e renovando as intoleráveis labaredas
Que consomem aquilo que podiam ser calores ternos,
Momentos carinhosos livres de correrias e quedas.

Transformamos o simples em complexo conjunto,
Tudo isso sem ganhar qualquer valor relevante
Que justifique o quanto consumimos em cada assunto,
Esquecendo o que se completou somente para ir adiante.

Transformamos o lazer em labor e esforço sem retorno,
Para além do facto de estarmos ocupados sem fim na alienação
Que rouba o sentido e se transforma num inconsciente suborno,
Criado e oferecido por cada um a si mesmo em inútil retribuição.

Quando já nada mais houver para nos ocupar talvez nos ocupemos de nós.

Actividade de Início de Noite

Está na hora de sujar os dedos e tentar criar algo escuro e ilustrativo para colocar à luz dos olhos de outrem.

Guiado pelos sentidos


Sem querer, fui guiado pela emoção dos sentidos até à razão.

O Tempo em Gestão

Pode o tempo ter gestão?
Pode o relógio ser manipulado,
Controlado e rearranjado, por nós alterado?
Pode, mas só numa manipulação
Mecânica, momentânea e inútil,
Coisa subtil, pouco mais que ilusão fútil.

Para nosso proveito o tempo não para,
É um continuar acumulado omnipresente,
Uma ferida benéfica que, nos sem fins, sempre sara.
Atrasar é não viver, assim ditou o presente,
Pois ele nunca acontece para além do momento
Que dura, prolongando-se apenas no aborrecimento.

Não podendo procrastinar em verdade,
Resta-nos acomodar à condição da irmandade
Humana que supostamente nos define.
A vontade de controlar comprime
O individuo a gerir os soltos vimes,
Para deles fazer o cesto entrelaçado de tempos
Em uniões tecidas de muitas lides,
De muitos compromissos e contratempos.

Resta-nos então saber tecer,
Ter a capacidade de criar um hábito
De fios de tempos, tentando vencer
As limitações e o óbito
De desaparecer sem tempo.

A Escalada do Poço


Caí num poço.
Caí no escuro,
Nada vejo ou ouço.
A textura do muro
É só o que sinto
Quando nele me encosto
Enquanto o medo finto,
E na esperança aposto.

Tentarei ser forte,
Mesmo que minta.
Tentarei a minha sorte.
Escalarei rumo à pinta
Luminosa que espero
Alargar no topo em luz.

Caio de novo, espero e recupero.
Relembro-me, por momentos, da esquecida cruz.

Reconforto-me na esperança,
Recarrego a confiança.

Neste lugar escuro e húmido,
Neste lugar odiado e temido,
Neste cárcere contrariamente assumido
Não será onde terei o meu último gemido.

Um Disfarçado no Mónaco

Andava pelo principado um pobre disfarçado de rico. Ninguém notava, pois o pobre só o era de espírito. Outros pobres sonhavam disfarçar-se também, para se sentirem entre iguais.

A Falsa Lembrança de África


Recordava com nostalgia a realidade que nunca vivera, aquela África mítica imaginada. Fazia como os leões que descrevia: defendia a falsa posição de poder até que o esquecessem.