Auto-retrato nº4


A Escalada do Poço


Caí num poço.
Caí no escuro,
Nada vejo ou ouço.
A textura do muro
É só o que sinto
Quando nele me encosto
Enquanto o medo finto,
E na esperança aposto.

Tentarei ser forte,
Mesmo que minta.
Tentarei a minha sorte.
Escalarei rumo à pinta
Luminosa que espero
Alargar no topo em luz.

Caio de novo, espero e recupero.
Relembro-me, por momentos, da esquecida cruz.

Reconforto-me na esperança,
Recarrego a confiança.

Neste lugar escuro e húmido,
Neste lugar odiado e temido,
Neste cárcere contrariamente assumido
Não será onde terei o meu último gemido.

Um Disfarçado no Mónaco

Andava pelo principado um pobre disfarçado de rico. Ninguém notava, pois o pobre só o era de espírito. Outros pobres sonhavam disfarçar-se também, para se sentirem entre iguais.

A Falsa Lembrança de África


Recordava com nostalgia a realidade que nunca vivera, aquela África mítica imaginada. Fazia como os leões que descrevia: defendia a falsa posição de poder até que o esquecessem.