Agricultor

Criador do mundo rural.
Rude e agreste vida a sua
Onde se ocupa do natural
Labor, sem que possua
Mais que só terra e verde,
Apenas o trabalho que herde.

Agarrado ao chão
Ama-o com paixão.
Criou nele longas raízes.
Dele viveu tempos felizes,
Dele viveu amarguras de escassez,
Conheceu colheitas de viuvez,
Acumulou outras de abundância
Que lhe trouxe momentos de ânsia
Porque nunca conheceu a cupidez.

Da magreza da fertilidade
Mantém toda a comunidade,
Alimenta-os, garante-lhes os ofícios.
Garante a vida na aldeia,
A vida na cidade, seus edifícios,
Suas obras de arte e até a ideia,
Cultivada pelos distantes intelectuais
Olvidados do agricultor nos seus anais.


Nota: Poema incluído no projeto "O Valor do Labor Tradicional", vencedor do Prémio Literário Padre João Maia - 2014

Memória presente de uma Avó

Dos muitos anos que passaram, passamos alguns contigo, uns mais que outros. Os filhos, netos e bisnetos, em toda a sua vida sempre te conheceram. Os que cá andam há mais tempo, mais tempo contigo estiveram, fosse naquela cozinha, junto ao lume daquela lareira, ou pelas terras, pelos pinhais e eucaliptais quando tratavas das árvores que nos davam o calor no inverno e com as quais se faziam os bancos onde nos sentávamos juntos. Contavas-nos história, do agora e do antigamente. Fazias aquela comida simples mas que tinha um sabor especial. Falavas da vida, da tua e das outras que conhecias. Falavas de como eram duras e sofridas. Falavas do trabalho que sempre enfrentaste com coragem e incentivavas que seguíssemos pelo mesmo caminho. Mas, falavas com uma sabedoria de quem viveu muito, e de quem pensava no que viveu. Falavas com um tom sério, mas também, sempre que possível, encontravas nessas histórias um motivo para as poder terminar com um sorriso.
Hoje continuas a falar, partilhando connosco a tua riqueza de vida. Hoje continuamos a ouvir esperando por aquela lição e aquele sorriso que remata.

Um país evacuado

Em 2015 foi decidido por referendo que Portugal seria evacuado! Todas as pessoas sairiam de Portugal. Ficariam somente alguns técnicos para assegurar a manutenção e conservação das infraestruturas, e militares para garantir o cumprimento do projeto. Os promotores desse plano defendiam que o problema de Portugal eram os próprios portugueses. Estranhamente, como nunca tinha acontecido na nossa história, a esmagadora maioria aceitou sem protestar a validade desse pressuposto. Assim foi feito um acordo com os restantes países da União Europeia. A dívida de Portugal seria perdoada, mas todas as pessoas em idade ativa estavam obrigadas a trabalhar nos países de acolhimento, descontando uma parte considerável dos seus vencimentos para amortizar a dívida nacional. Os idosos e incapacitados seriam acolhidos também, fazia parte do contrato. Somente 20 anos depois o país poderia ser reocupado, garantindo-se que tudo estava em condições para o retorno em massa da população já aculturada. Os portugueses seguiram voluntariamente para a diáspora que os tentaria transformar noutra coisa qualquer.
O objetivo do êxodo em massa era, acima de tudo, fazer uma revolução cultural - uma mudança total de mentalidades e hábitos. No fundo, acabou por ser uma das maiores tentativas de extermínio cultural do planeta. Mas em Portugal ficaram alguns resistentes que passaram a viver na clandestinidade. Formou-se uma sociedade de resistentes que se autogovernava de um modo eficiente e democrático como nunca se tinha visto em Portugal, apesar de todas as dificuldades, das perseguições e dificuldades de toda a espécie. Lutavam como podiam contra a opressão de um país desocupado mas rigidamente patrulhado por forças militares afetas ao contrato celebrado pela maioria.
A calamidade consumou-se mas a esperança não morreu naquele que era um Portugal esvaziado, mas sempre combativo. Os portugueses obrigados a viver fora da pátria, haveriam de ficar descontentes com o destino que haviam escolhido. Na desmotivação da expatriação motivar-se-iam para reconstruir um novo Portugal aquando da volta. Trabalhariam o mais que podiam para um dia poder regressar, sentindo que, por melhor que fosse a sua qualidade de vida, a impossibilidade de viver no Portugal parte de si era insuportável. Cresceria o mito do regresso a um país que afinal não era tão mau como se pensava.
Os que ficaram e os que partiram, mesmo sem saberem, estavam unidos e convencidos de que Portugal poderia ser reinventado. Mas quando chegasse a hora de voltar será que ainda se lembrariam do que deixaram e os levara ao desvario coletivo? Será a aculturação possível de reverter? E será que os portugueses de fora e de dentro saberiam conviver? Só o futuro o diria.

Nota: Texto criado para o P3

O último concerto

Orquestrou tudo para durar 7 dias. Desafinou na última música do 6º dia enquanto criava a humanidade. Ficou farto, por isso decidiu parar um dia antes. Seria o último seu concerto