Só não frequenta a escola da vida quem está morto

Só não frequenta a escola da vida quem está morto.

Vídeo do poema "Amigos quase Desconhecidos" ao vivo

 

Vídeo registado durante o 1.º Poetry Slam de Leiria, realizado no Atlas Hostel em Leiria, dia 19 de Março de 2017. Poema da autoria do declamador, Micael Sousa.

Palavras sangradas

Engasguei-me com umas palavras
Que escrevi mas nunca li.
Quando as ouvi
Perdi-lhes o sentido
Pois havia passado o dia
Em que as tinha vivido.

Risco mais uma quantas letras,
Mascaradas de sentido…
…mas neutras,
Num palimpsesto digital
Como se fossem alguma
Coisa de fulcral.

Procuro registar sentimentos
Com palavras arrancadas em ferida.
De que vale este ato de mutilação?
Quanto valem as palavras sangradas?
Valem só pelo facto de existirem.
Valem sem que lhes dêem valor
Por não se ver a chaga de dor.
Valem tanta como tudo o resto:
Tudo e nada.

A Arte de ser indispensável

"A arte de ser indispensável" é o título do livro que mais me marcou sem nunca o ter lido.

Vou Escrever um Livro

Um dia irei escrever um livro inteiro
Cheio de meias verdades,
Vazio de conhecimento:
O produto das minhas experiências.
Vou pedir a alguém para escrever por mim.
Só assim será verdadeiramente
Da minha autoria.

Verde, água e terra

No entroncamento dos desertos
Brota Constância das dunas verdes.
Transpira resina perfumada gota a gota,
Escorrendo ao ritmo próprio
Das chuvas distraídas aí acumuladas.

Nesses reflexos de imensidão
Perde-se a memória do tempo,
Das correrias superficiais.
Fortes correm as águas,
Teimosas no seu destino.
Lentas correm as mágoas
Cobertas de calma espelhada.

Nem tudo é água e verde,
Nem toda a casa emerge da terra.
Nem tudo é como aparenta não ser.

Do banco do jardim de rio,
Pelos trilhos amaciados de humidade,
Escorregam pensamentos,
Corrente abaixo,
Liberta-se a alma
Pelo vento concorrente
Neste cruzamento.

Nota: obteve o 4.º Lugar na 3.ª edição do concurso literário Alexandre O’Neill 2016 na categoria de poesia

Elefante Branco e as chuvas desamparadas

Na terra dos intelectuais emergem elefantes brancos, alimentados de palhas débeis.
Na secura desse substrato rasgam-se trilhos incertos com o tempo.
Eventualmente caem as chuvas desamparadas, atiradas para o solo ferido, sem aspirarem a novas evaporações, pois o paquiderme tudo absorve rumo à candura.