Viagem ao buraco negro

Na orla do buraco negro,
Sanguessuga de luz,
Destruidor de matéria,
Vivi uma vida translúcida.

Refleti a escuridão,
Intensificada pelo pior de mim.
Fui o louco navegador
Que lutou inerte contra a gravidade.
Fui o inconsciente sábio
A quem todos aconselharam
Para que tivesse mais sabedoria.

A alma resistia a desprender-se do corpo.
Mas consegui mante-la
Perante a atração autodestruidora.

Fiz de conta que esqueci o medo
Para compreender esta força de atração.
Falhei porque escolhi a compreensão.
Acertei porque a perda de massa,
Do seu peso relativo,
Nunca me preocupou.

Banquete de Carne


As facas suspiram por carne,
Transpiram sangue de nervosismo.
Anseiam por serem afiadas,
Ainda que temam
Perder o sabor a morte do passado.

Peitos abertos
Costas assinaladas
Preparam-se na inocência
Para resistirem às facas.
Há quem prefira uma coxa para entreter.
Certamente se irão juntar
Nabos e repolhos,
Meramente decorativos.
No fundo interessa a carne,
Ainda viva,
Servida à mesa festiva.

Nem a música foi esquecida
Para abafar os gritos
Da dupla matança.
Na há refeição sem morte,
Não há vida sem medo,
Pois quem não temeu não viveu,
Apenas digeriu sem saborear.

A fome aperta,
As entradas já lá vão,
Devoradas com a pressa
De provar a carne.
Bom apetite.

Pura Crença

"Acreditem em mim
E tudo será maravilhoso."
Mas como podíamos acreditar
Numa coisa assim improvável
Que só pode ser credível
Com base na pura crença?

Um nojo

A borbulha explodiu,
Projetando pus pelo ar,
Libertando um cheiro
De fedor que sintonizou
Vómitos e excreções.

O ritmo da podridão
Avançou sobre vomitados e fezes
Que no calor corriam misturadas em diarreia,
Inevitavelmente estagnando,
Inevitavelmente borbulhando
E deixando uma espuma de dejetos
Que ritmava ao sabor da brisa agoniante
Do nojo de toda aquela paisagem.
 

O desfiladeiro

Entre neblinas que ocultam,
Persistem, rodopiando,
Obscuridades incertas,
Trazidas por ventos imprevisíveis.

A luz intermitente cinge-se
Ao mínimo suficiente,
Pois entre vales incertos
Reina sempre a penumbra.

Sobre os colossos de outros tempos,
Esculpidos da rocha pura,
Jazem as esperanças erodidas
Pelos elementos adversos
Desse ambiente desgastante.

A natureza das coisas
Cobriu-se de um manto de dor.
Enquanto dilacera,
Ao longo de muitas vidas humanas,
O desfiladeiro mostra as verdadeiras formas.
Enquanto sangra com chuvas
Lava as suas fragilidades.
Ficam as ruínas sólidas
Da sua verdadeira essência.


As palavras dos outros e as minhas

Escrevo como sei.
Escrevo por mim.
Não porque não me emprestem palavras,
Não porque não saiba onde as extrair,
Aquelas dos grandes mestres.
Mas porque as minhas me dizem,
Todos os dias, em jeito de bofetada,
Que ainda mal as sei usar.

Paraísos de outra dimensão

Suportamos cada coisa uns dos outros, somando às dificuldades inevitáveis da vida, que somos forçados a criar paraísos noutras dimensões.