O Tempo em Gestão

Pode o tempo ter gestão?
Pode o relógio ser manipulado,
Controlado e rearranjado, por nós alterado?
Pode, mas só numa manipulação
Mecânica, momentânea e inútil,
Coisa subtil, pouco mais que ilusão fútil.

Para nosso proveito o tempo não para,
É um continuar acumulado omnipresente,
Uma ferida benéfica que, nos sem fins, sempre sara.
Atrasar é não viver, assim ditou o presente,
Pois ele nunca acontece para além do momento
Que dura, prolongando-se apenas no aborrecimento.

Não podendo procrastinar em verdade,
Resta-nos acomodar à condição da irmandade
Humana que supostamente nos define.
A vontade de controlar comprime
O individuo a gerir os soltos vimes,
Para deles fazer o cesto entrelaçado de tempos
Em uniões tecidas de muitas lides,
De muitos compromissos e contratempos.

Resta-nos então saber tecer,
Ter a capacidade de criar um hábito
De fios de tempos, tentando vencer
As limitações e o óbito
De desaparecer sem tempo.

A Escalada do Poço


Caí num poço.
Caí no escuro,
Nada vejo ou ouço.
A textura do muro
É só o que sinto
Quando nele me encosto
Enquanto o medo finto,
E na esperança aposto.

Tentarei ser forte,
Mesmo que minta.
Tentarei a minha sorte.
Escalarei rumo à pinta
Luminosa que espero
Alargar no topo em luz.

Caio de novo, espero e recupero.
Relembro-me, por momentos, da esquecida cruz.

Reconforto-me na esperança,
Recarrego a confiança.

Neste lugar escuro e húmido,
Neste lugar odiado e temido,
Neste cárcere contrariamente assumido
Não será onde terei o meu último gemido.