O meu Inerte Calo


Nasceu-me um calo.
Mas só agora dele falo.
Não foi no pé nem na mão.
Cresceu-me no conformismo,
Desenvolveu-se do estatismo,
Ganhou raízes de ilusão.

A cada esquina por dobrar
Me vem a maleita incomodar.
Sinto-me, sinto-o, mas aguento
Habituado à inércia. Sim, temo
O receio, o falhanço infértil e ermo.
Adio-me. Espero mais um momento

Enquanto procrastino, endureço
A rigidez do calo de que padeço.
Espero pelo dia em que empece,
Pela hora em que me tratem,
Que me curem e não maltratem,
Espero que um dia tropece.

Adiando fico adiado,
Parando fico parado.
Ansiando sem nada fazer
Pela cura, que pouco me importa,
Iludo-me sem tentar abrir a porta
Para a solução que só eu posso trazer.


Aparvalhadamente Enamorado

És horrível e feia,
Tão desprezível e insensível.
És insuportável e detestável!
Mas infelizmente estou apaixonado,
Com o discernimento toldado.
Fico neste estado aparvalhado.
Deixas-me desconcertado e atrapalhado,
Por vezes até contrariado e enervado!
Sinto-me confuso e perdidamente enamorado…

As Férias de Hoje

Anseio pelas férias,
Pelo verão de antigamente,
Aquele das tardes pouco sérias
Em que vivia despreocupadamente.
O Verão antigamente era imenso,
Nele uma segunda vida vivia.
Dele só me fica a nostalgia
Do tempo suspenso.

Mudaram as férias.
Mudaram os labores.
Acompanham-me tensões e lérias,
Sabores e impensáveis odores,
Segregados por o que esperava vir a ser.
Sabia lá eu o que seria, mesmo sabendo
O que ser queria. Assim, fui-me apercebendo
Das construções fantasiosas do crescer.

Mas vou sempre de férias,
Desejando ter as antigas
Infindáveis noites galdérias,
Onde saia comigo mesmo e amigas
Ideias de uma liberdade iludida.
Vou aproveitando os parcos dias,
As bênçãos da vida moderna.
Aproveito-os tentando uma vivência eterna.
Mas essas liberdades são vãs comédias,
Ri-o tudo numa só vez! Lá volto depois à caserna.
Esperam-me depois as rotineiras e suas tragédias.