O Interior mais Alto do Mosteiro da Batalha


Espinha Dorsal de uma Rua Torta de Leiria


Escrever com tinta enganos

Sinto cada vez mais vontade em escrever com caneta e papel, especialmente se escorrer de uma caneta de tinta permanente, capaz de registar enganos e erros. Pegar num caderno, sair por ai, mundo fora, e escrever e ilustrar em riscos e rabiscos as visões falíveis que provoca, justifica só por si o esforço de percorrer quilómetros escrevendo sobre nada.
Quero escrever para mim, sentindo os outros e o meio. Quero conhecer o mundo através dos limites que não tem, mas que a estreiteza da minha visão, esforçada na tentativa evitar a miopia de pensar que se vê tudo, me baliza no esforço de aparência esférica.
Se me enganei fico contente por o ter percebido. Se acertei fico desconfiado pois só pode ser ilusão ou mera classificação de quem quer dar sentido de forma ao sentido que nada disto tem. 

A História do Coelho Amuado

Reinava a desordem na Quinta. O Coelho, por essa altura, a partir da sua coelheira, sempre dada a grandes rebaldarias, tentava cumprir com a responsabilidade de liderar todos os animais. Já muitos tinham sido os líderes daquela Quinta. De tempos-a-tempos os animais residentes elegiam uma espécie diferente, embora ficassem com a sensação que a raça era sempre a mesma. Mas foi quando o Coelho se tornou chefe que alguns começaram a ver a diferença, pois sentiam-na no pelo e nas penas.
O Coelho ia recriminando todos, dizendo que andavam gordos porque eram preguiçosos, embora a culpa fosse da ração que todos sempre haviam comido, sem conhecer os seus verdadeiros efeitos. Em vez de mudar a alimentação que era distribuída e arranjar novas sementes para que se sustentassem com uma nova horta, mais saudável e que controlassem, insistiu em reduzir a dose da ração industrial, vinda sabia-se lá de onde. Assim, mesmo comendo muito menos, ninguém tinha emagrecido. Ficaram apenas cada vez mais doentes.
Percebendo o que se passava, o grupo dos animais mais velhos decidiu que o Coelho não podia fazer tudo o que queria. Mesmo nesses tempos de crise os animais anciãos ainda podiam proibir algumas coisas. O Coelho, espantado por desconhecer como era o mundo fora da coelheira, ficou sem saber o que fazer. Decidiu amuar e culpar os anciãos pela sua própria incapacidade de resolver os problemas da Quinta, achando por bem que as leis da natureza pudessem ser violadas sem consequências só porque lhe convinha. Esquecia-se que eram as leis aceites pelos outros animais que lhe permitiam viver naquela coelheira, e de lá mandar na Quinta.
Com o incómodo do líder Coelho caiu a preocupação sobre a comunidade. Cada animal sentia-se, agora mais do que nunca, a caminho do matadouro…

Nota: Texto criado para publicação no projeto online P3